Quando contamos o mito de Narciso, é fácil manter os olhos sobre ele.
O jovem que se apaixona pela própria imagem. O reflexo na água. A impossibilidade de encontrar verdadeiramente o outro.
Mas existe outra personagem nessa história.
E talvez seja justamente aquela que menos conseguimos ouvir.
Eco.
Antes mesmo de encontrar Narciso, Eco já havia perdido algo fundamental: a possibilidade de usar a própria voz livremente.
E isso muda completamente a maneira como podemos olhar para sua história.
Eco não nasceu sem voz
Na versão narrada por Ovídio em Metamorfoses, Eco era uma ninfa conhecida por sua fala.
Depois de usar sua conversa para distrair Juno enquanto outras ninfas escapavam de sua vigilância, recebe um castigo: não poderá mais iniciar suas próprias falas.
A partir daquele momento, poderá apenas repetir as últimas palavras pronunciadas por outra pessoa.
Eco continua tendo voz.
Mas já não consegue utilizá-la para dizer aquilo que deseja.
Essa diferença é importante.
Sua voz não desaparece. Ela passa a depender da voz do outro.
Então Eco encontra Narciso
Quando vê Narciso, Eco se apaixona.
Mas como declarar aquilo que sente se não consegue iniciar uma conversa?
Ela espera.
Escuta.
E procura nas palavras dele uma oportunidade para finalmente dizer alguma coisa.
Quando Narciso chama, Eco responde.
Quando ele pergunta, ela repete.
Quando surge uma brecha nas palavras dele, ela tenta colocar ali o próprio desejo.
Mas a aproximação termina em rejeição.
Narciso vai embora.
Eco permanece.
Quando existir depende demais do outro
É possível fazer uma leitura psicológica muito interessante dessa imagem.
Existem pessoas que, aos poucos, aprendem a ocupar pouco espaço nas relações.
Percebem rapidamente aquilo que o outro deseja.
Adaptam-se.
Evitam conflitos.
Sentem dificuldade em expressar necessidades.
Têm medo de parecer egoístas, exigentes ou inconvenientes.
À primeira vista, podem parecer apenas extremamente cuidadosas com os outros.
O problema aparece quando esse cuidado exige um desaparecimento constante de si.
O que eu quero?
O que eu penso?
O que eu não aceito?
O que eu diria se não estivesse tão preocupado com a reação do outro?
Às vezes essas perguntas se tornam surpreendentemente difíceis de responder.
A personalidade ecoica
Na psicologia contemporânea, o termo ecoísmo passou a ser utilizado para descrever um padrão marcado pela dificuldade de ocupar espaço, receber atenção e reconhecer as próprias necessidades, frequentemente acompanhado de grande preocupação em não parecer egoísta ou narcisista.
Não se trata de um diagnóstico clínico.
É uma maneira de compreender determinados padrões de funcionamento.
E o nome não poderia ser mais simbólico.
Assim como a ninfa do mito, a pessoa pode ter uma voz, mas encontrar dificuldade para utilizá-la quando essa voz ameaça desagradar, contrariar ou simplesmente existir independentemente do outro.
Eco já havia perdido a voz antes de Narciso
Talvez esse seja o ponto mais importante de sua história.
Foi Narciso quem rejeitou Eco.
Mas não foi Narciso quem retirou sua voz.
Ela chegou ao encontro com ele já impossibilitada de falar livremente.
Essa imagem permite uma reflexão importante sobre relacionamentos nos quais uma pessoa vai progressivamente se anulando.
É tentador imaginar que foi aquela relação que criou tudo.
Às vezes, porém, o relacionamento encontra uma dificuldade que já existia anteriormente.
Medo de desagradar.
Necessidade de aprovação.
Dificuldade de estabelecer limites.
Sensação de que as necessidades do outro são sempre mais importantes.
Isso não diminui a responsabilidade de alguém que controla, manipula ou desrespeita.
Mas amplia a pergunta.
Em vez de perguntar apenas:
“Por que ele fez isso comigo?”
pode surgir também:
“Por que foi tão difícil continuar me ouvindo enquanto eu estava nessa relação?”
Recuperar a própria voz
No mito, depois da rejeição, Eco se afasta.
Seu corpo definha até que nada resta além de sua voz.
Ela continua respondendo pelos lugares, repetindo aquilo que escuta.
Talvez seja por isso que sua história continue tão poderosa.
Eco nos lembra que desaparecer dentro de uma relação nem sempre começa quando encontramos alguém que ocupa espaço demais.
Às vezes começa muito antes, quando aprendemos que, para sermos amados, aceitos ou preservarmos um vínculo, precisamos ocupar espaço de menos.
Recuperar a própria voz não significa deixar de ouvir o outro.
Significa conseguir ouvi-lo sem deixar de escutar a si mesmo.
E talvez a pergunta deixada por Eco seja justamente esta:
Quanto daquilo que você diz realmente nasce da sua própria voz e quanto ainda é apenas uma resposta ao que esperam de você?
Luciana Paiva
Psicóloga • Neuropsicóloga
