Há alguns anos, publiquei no meu canal do YouTube um vídeo falando sobre arquétipos. Ele alcançou centenas de milhares de pessoas e acabou abrindo caminho para outros conteúdos sobre figuras como Afrodite, Atena e Cleópatra.
Naquela época, eu mesma utilizava expressões como “arquétipo de Cleópatra” ou “arquétipo de Afrodite”, uma linguagem que ainda aparece em alguns dos meus vídeos antigos.
Hoje considero importante fazer uma distinção.
Afrodite é uma figura mitológica. Cleópatra foi uma personagem histórica. Nenhuma delas corresponde, de forma literal, a um arquétipo específico criado por Jung.
O que torna essas figuras tão interessantes é outra coisa: elas atravessaram seu próprio tempo e passaram a carregar significados que continuam vivos no imaginário coletivo. Por isso, podem ser estudadas simbolicamente e relacionadas a temas arquetípicos.
Essa diferença parece pequena, mas muda bastante a compreensão do assunto.
Afinal, o que é um arquétipo?
Em palavras simples, podemos pensar nos arquétipos como padrões profundos da experiência humana.
Jung percebeu que certos temas aparecem repetidamente nos mitos, nos sonhos, nas religiões e nas histórias de diferentes culturas.
O herói, a mãe, o guerreiro, o velho sábio, a travessia, a morte e o renascimento.
As imagens mudam. As culturas mudam. Mas algumas experiências humanas continuam atravessando o tempo.
É nesse território que podemos começar a compreender os arquétipos.
Arquétipo, símbolo e mito não são a mesma coisa
Uma forma simples de diferenciar é pensar assim:
O arquétipo é o padrão.
O símbolo é uma forma pela qual esse padrão pode ganhar expressão.
O mito é uma narrativa que reúne símbolos, personagens e conflitos humanos.
E os famosos 12 arquétipos?
Também encontramos com frequência listas com Herói, Sábio, Criador, Cuidador, Fora da Lei e outros.
Essa organização em 12 arquétipos não foi criada por Jung. Ela foi desenvolvida posteriormente e ganhou muita força no universo da comunicação e do marketing.
Inclusive, eu mesma já utilizei esse modelo em uma aula sobre Psicologia dos Símbolos em parceria com a Neil Patel Brasil, justamente porque ele funciona como uma ferramenta didática para pensar marcas e comunicação.
Mas uma ferramenta de organização não deve ser confundida com toda a teoria dos arquétipos.
E dá para “ativar” um arquétipo?
Essa foi provavelmente a pergunta que mais apareceu nos comentários dos meus vídeos.
Qual arquétipo usar para prosperar? Para ser mais atraente? Para ter confiança?
Eu entendo o interesse. Gostamos de soluções práticas para problemas que são muito mais complexos.
Uma imagem pode nos afetar. Uma personagem pode nos fascinar. Um símbolo pode despertar emoções, lembranças e identificações profundas.
Mas isso é diferente de imaginar que escolhemos um arquétipo e simplesmente o ligamos ou desligamos para adquirir determinadas características.
A psique não funciona como uma lista de atributos que selecionamos.
Uma reflexão
Hoje, a pergunta que mais me interessa não é:
“Qual arquétipo eu deveria ativar?”
É:
“Por que essa imagem mexe tanto comigo?”
Estudar símbolos e arquétipos pode ser muito mais interessante quando deixamos de procurar uma fórmula para nos transformar e começamos a observar aquilo que já está acontecendo dentro de nós.
Os símbolos não precisam nos dar respostas prontas. Muitas vezes, seu maior valor está nas perguntas que eles nos fazem.
Luciana Paiva
Psicóloga • Neuropsicóloga
