Água, ar, fogo e terra aparecem há milhares de anos nas tentativas humanas de compreender a natureza.
Mas também podemos olhar para esses elementos de maneira simbólica.
Foi a partir dessa ideia que, nos últimos vídeos, fiz uma aproximação entre os quatro elementos e algumas figuras da mitologia grega. Não para dizer que cada deus representa literalmente um elemento, mas para usar essas imagens como uma forma de pensar diferentes movimentos que também fazem parte de nós.
Água: sentir sem ser levado pela correnteza
A água talvez seja o elemento que mais facilmente associamos às emoções.
Ela se adapta, muda de forma, pode correr tranquilamente ou ganhar uma força enorme.
Foi por isso que escolhi Poseidon, deus dos mares, para pensar simbolicamente esse elemento.
O mesmo mar que acolhe também pode ser imprevisível. E nossas emoções não são tão diferentes assim.
Sentir é necessário. A sensibilidade nos permite criar vínculos, perceber o outro e entrar em contato com aquilo que acontece dentro de nós.
Mas flexibilidade não significa não ter forma alguma.
Às vezes precisamos nos adaptar. Em outras, precisamos encontrar um pouco de chão para não sermos simplesmente levados pelo que sentimos.
Ar: quando as ideias precisam encontrar um lugar para pousar
O ar é movimento. Não podemos vê-lo, mas percebemos seus efeitos.
Ele me parece uma boa imagem para o pensamento, a imaginação e a criatividade.
Nos vídeos, fiz essa aproximação com Zeus, ligado ao céu, às alturas e à potência.
Existem pessoas que parecem viver nesse território. Uma ideia puxa outra, que abre outra possibilidade, que cria mais um projeto.
Isso pode ser uma enorme potência criativa.
Mas talvez você conheça aquela sensação de pensar muito, planejar muito, imaginar inúmeras possibilidades e, no final, ter dificuldade de transformar tudo isso em alguma coisa concreta.
Às vezes não falta criatividade.
Falta terra.
Fogo: aquilo que nos coloca em movimento
Uma ideia pode ser maravilhosa. Um sentimento pode ser profundo. Mas existe um momento em que alguma coisa precisa nos fazer agir.
É aí que entra o fogo.
Escolhi Ares não porque ele seja o deus grego do fogo, mas porque sua imagem carrega algo do impulso, da coragem e da força que vai para a ação.
O fogo aquece, ilumina e transforma.
Mas também pode consumir.
Talvez por isso ele seja uma imagem tão interessante para pensar nossa própria energia. Precisamos de impulso para começar, enfrentar, decidir e fazer.
Só que força sem direção também pode virar destruição.
Terra: quando alguma coisa finalmente ganha forma
E então chegamos à terra.
Se o ar imagina e o fogo movimenta, a terra pergunta:
O que vamos fazer com tudo isso?
Foi aqui que escolhi Hades, ligado ao mundo subterrâneo e também às riquezas que estão sob a terra.
Simbolicamente, a terra nos aproxima da matéria, da estrutura e daquilo que pode ser concretizado.
É organizar. Construir. Sustentar. Terminar aquilo que começamos.
Mas até a terra, quando aparece em excesso, pode endurecer.
Estrutura pode virar rigidez. Segurança pode virar medo de mudança. O desejo de construir pode se transformar em apego àquilo que já existe.
Talvez a questão não seja descobrir qual elemento você é
Quando falamos de símbolos, existe sempre a tentação de transformar tudo em uma classificação.
“Sou água.”
“Sou fogo.”
“Tenho muita terra.”
Mas acho mais interessante olhar para os quatro elementos como movimentos que aparecem em diferentes momentos da nossa vida.
Precisamos da água para sentir, do ar para imaginar, do fogo para agir e da terra para realizar.
E talvez equilíbrio não seja ter tudo na mesma medida.
Há momentos em que precisamos de mais movimento. Outros pedem estrutura. Às vezes precisamos flexibilizar. Em outros momentos, justamente o contrário: precisamos parar de nos adaptar e encontrar firmeza.
Os antigos encontraram muitas maneiras de representar essa busca por integração. Os elementos aparecem combinados em diferentes símbolos e tradições e, séculos depois, Leonardo da Vinci colocaria o próprio corpo humano no centro de uma de suas imagens mais conhecidas: o Homem Vitruviano.
Culturas e épocas diferentes, com significados também diferentes. Por isso, não precisamos transformar esses símbolos em uma única teoria.
Podemos apenas observar algo que continua muito atual:
equilíbrio não é permanecer parado no centro. É perceber o que está faltando quando alguma parte de nós ocupa espaço demais.
Luciana Paiva
Psicóloga • Neuropsicóloga
