Outro dia percebi uma coisa que tenho ouvido de muitas pessoas: ler um livro parece exigir muito mais esforço do que antes.
Você começa. Lê algumas páginas. Daqui a pouco pega o celular. Volta para o livro. Lê mais um pouco e percebe que passou os olhos por um parágrafo inteiro sem prestar atenção.
E isso pode acontecer até com quem sempre gostou de ler.
Não significa necessariamente que perdemos a capacidade de concentração. Mas talvez diga alguma coisa sobre a forma como estamos usando nossa atenção todos os dias.
Nossa atenção se acostuma com aquilo que fazemos
Pense em quantas coisas podem acontecer em poucos minutos nas redes sociais.
Um vídeo termina e outro começa. Você passa por uma notícia, uma receita, uma discussão, uma música, uma história engraçada e uma propaganda.
Se alguma coisa não interessa, basta um movimento do dedo.
Em pouco tempo, nosso cérebro entra em contato com uma quantidade enorme de estímulos.
Um livro funciona de outra maneira.
Ele não muda de assunto porque ficamos entediados. Não oferece uma novidade a cada poucos segundos. Não acelera porque estamos impacientes.
A leitura exige que permaneçamos.
E talvez seja justamente isso que esteja ficando mais difícil.
O problema não é simplesmente o celular
Seria fácil colocar toda a culpa nas redes sociais.
Mas não acho que seja tão simples.
O celular também nos permite ler, estudar, pesquisar e ter acesso a uma quantidade de conhecimento que seria inimaginável há algumas décadas.
A questão está muito mais na forma como consumimos informação.
Nas redes, aprendemos rapidamente a selecionar aquilo que merece nossa atenção. Rolamos a tela, pulamos, aceleramos, abrimos outra coisa.
Esse comportamento faz sentido naquele ambiente.
A dificuldade aparece quando levamos esse mesmo ritmo para atividades que funcionam de outra maneira.
Ler exige um tipo diferente de atenção
Quando lemos um livro, precisamos acompanhar uma ideia por algum tempo.
Uma frase depende da anterior. Um personagem vai sendo construído aos poucos. Um argumento pode precisar de várias páginas antes de chegar a uma conclusão.
Não existe recompensa nova a cada movimento.
Existe continuidade.
Por isso, quando estamos muito acostumados à alternância rápida de estímulos, abrir um livro pode produzir uma sensação curiosa:
parece que nada está acontecendo.
Mas está.
Só está acontecendo em outro ritmo.
Talvez estejamos desaprendendo a tolerar o intervalo
Existe também uma coisa que me chama atenção.
Durante muito tempo, pequenos momentos de espera faziam parte da vida.
Esperávamos o ônibus. Ficávamos em uma fila. Sentávamos em algum lugar sem necessariamente fazer alguma coisa.
Hoje, qualquer intervalo de alguns segundos pode ser preenchido pelo celular.
Não precisamos esperar muito para encontrar alguma coisa que nos distraia.
E isso muda nossa relação com o tédio.
O problema é que algumas experiências importantes começam justamente nesse espaço em que aparentemente “não está acontecendo nada”.
Ler é uma delas.
Pensar também.
Então perdemos nossa capacidade de ler?
Não necessariamente.
Talvez seja mais interessante pensar que a atenção também responde aos hábitos que construímos.
Se passamos horas alternando rapidamente entre estímulos, é compreensível que permanecer quarenta minutos diante de um livro pareça difícil.
Isso não significa que a leitura profunda desapareceu.
Significa que talvez ela precise voltar a ocupar espaço na nossa rotina.
Não como uma obrigação ou uma competição para ver quantos livros conseguimos terminar.
Mas como uma experiência diferente daquela que encontramos na tela.
Porque existe uma diferença entre receber muita informação e permanecer tempo suficiente diante de uma ideia para realmente pensar sobre ela.
E, em uma época em que quase tudo disputa nossa atenção, talvez conseguir permanecer seja uma habilidade cada vez mais valiosa.
Luciana Paiva
Psicóloga • Neuropsicóloga
