Hoje é 2 de outubro.
E uma música me veio à cabeça: Diário de um Detento, dos Racionais MC’s.
Talvez você goste de Racionais. Talvez não goste. Talvez tenha lido o nome e pensado imediatamente: “não é para mim”.
E foi justamente isso que me fez querer escrever este texto.
Porque, muitas vezes, antes mesmo de conhecer alguma coisa, já temos uma opinião sobre ela.
Isso acontece com música, filmes, livros, lugares e, principalmente, com pessoas.
Não acho que seja necessariamente ruim. A gente vai construindo referências ao longo da vida e elas nos ajudam a entender o mundo.
Mas às vezes essas referências também fazem outra coisa: nos fazem acreditar que já conhecemos algo que, na verdade, conhecemos muito pouco.
Antes de ouvir, a gente já espera alguma coisa
Com pessoas fazemos algo parecido.
Às vezes bastam algumas informações para começarmos a imaginar o restante.
A profissão.
A roupa.
O bairro onde mora.
A religião.
O jeito de falar.
Uma opinião.
E pronto. Sem perceber, começamos a preencher os espaços que ainda não conhecemos.
Não fazemos isso porque somos pessoas ruins. Nosso cérebro trabalha com referências, associações e experiências anteriores.
A questão é perceber quando aquilo que já sabemos começa a ocupar o lugar daquilo que ainda poderíamos descobrir.
E foi aí que voltei para a música.
“Quem vai acreditar no meu depoimento?”
Diário de um Detento atravessa o dia 2 de outubro de 1992, data do Massacre do Carandiru, e termina no dia seguinte com uma pergunta:
“Mas quem vai acreditar no meu depoimento?”
É uma frase que pertence àquela história.
Mas, quando pensei nela hoje, ela me levou para outro lugar.
Porque acreditar em alguém raramente depende apenas do que essa pessoa está dizendo.
Depende também do que já pensamos sobre quem está falando.
Quando gostamos de alguém, talvez estejamos mais dispostos a escutar.
Quando não gostamos, podemos ouvir procurando o erro.
Quando alguém pensa parecido conosco, algumas coisas parecem fazer sentido rapidamente.
Quando pensa muito diferente, às vezes começamos a preparar nossa resposta enquanto a pessoa ainda está falando.
Eu faço isso.
Imagino que muita gente faça.
E talvez a parte mais difícil seja justamente perceber quando estamos fazendo.
Escutar não é concordar
Acho que existe uma confusão importante aqui.
Escutar alguém não significa concordar com essa pessoa.
Conhecer uma ideia não significa adotá-la.
Tentar compreender um ponto de vista também não significa abandonar o nosso.
Posso ouvir uma música e não gostar.
Posso ler um livro e discordar.
Posso conversar com alguém que pensa completamente diferente de mim e terminar a conversa continuando a pensar exatamente como antes.
Mas escutar pode trazer algo simples…entender um pouco mais sobre por que aquela pessoa pensa daquela maneira.
O interessante é perceber a diferença entre ter uma opinião depois de conhecer e ter uma opinião que nos impede de conhecer.
Hoje, para mim, a música serviu para lembrar disso.
Luciana Paiva
Psicóloga • Neuropsicóloga
